Ação e prática.
Gostaria de fazer algumas reflexões sobre a relação entre ação e pensamento no livro o amanuense Belmiro de Ciro dos anjos.
O livro: O Amanuense Belmiro é um livro no qual o funcionário público Belmiro Borba decide narrar sua vida. Nessa narrativa fica evidente o contraste entre a vida interna e a vida externa do personagem.
Os personagens: Belmiro, o burocrata poeta; Silviano, filósofo protofascista; Redelvim, agitador anarquista; Jandira, comunista, mulher emancipada; Florêncio, pequeno burguês. Incrivelmente, eles formam o círculo intelectual da cidade e representam as forças sociais e políticas que desastradamente vão consolidar a ditadura de Getúlio em 1938.
O contexto: Minas gerais em 1935, golpe comunista. Getúlio usou o golpe como pretexto para cancelar às eleições de 1937 e se consolidou ditador.
Redelvim é preso, apesar de não ser um personagem de importância no golpe. Silviano vai visitá-lo na cadeia, ao sair da visita afirma: Com esse revolucionário aí o Brasil está salvo, pois: "Louco, não tem senso filosófico, nem senso histórico. Vai pela cabeça desse maluco de Marx! Esqueceu-se que Marx saiu de Hegel e de que Hegel saiu de Kant! E que em Kant a gente encontra de tudo, a favor e contra (nota minha: antinomias da razão)"
Silviano é um filósofo pedante e nefelibata. Para ele, entender a história da filosofia e todas as minúcias e raciocínios que levaram de Kant à Marx é mais importante e prévio à qualquer tipo de agitação política. Para Redelvim, a ação política e a agitação são mais importantes que qualquer minúcia filosófica. Velha dicotomia entra teoria e prática. Falsa dicotomia, pois o pensamento verdadeiro é ação que transforma o mundo e a ação verdadeira é pensamento que entende a realidade (Heidegger, carta sobre o humanismo).
Contudo, os personagens do livro parecem estar aprisionados nessa dicotomia. Belmiro, o poeta lirico e pensador literário tem uma vida medíocre, seu pensamento não consegue alcançar e transformar a realidade, ele não age, apenas pensa. Redelvim, o agitador é o suporte de bordões e dogmas políticos, ele não pensa, apenas age. Silviano, pensador nefelibata, o filósofo pedante, que despreza às massas (os filistinos), debate apaixonadamente o ceticismo de Pascal com um tomista, entrega-se ao que chama problema faústico (no qual, o amor é sufocado pelo intelecto), tem casos extraconjugais com o pseudônimo Aristóteles de Stagira. Mas, em nenhum momento parece se importar um pouco que seja com a situação política e os importantes acontecimentos do ano de 1935, ele é o filósofo da torre de marfim.
Belmiro se revolta pelo lirismo, mas seu lirismo é uma paixão inútil, ele não tem efeito prático sobre os acontecimentos ou sobre o mundo. Termina o livro citando Drummond: “mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração”. O eu é maior que o mundo, o diário de Belmiro é mais importante que o jornal que narra a vida política do Brasil. O amanuense está isolado da história, contudo, a história arromba a porta de Belmiro...
Redelvim recebeu alguns pacotes de livros subversivos por meio de Belmiro, esse não sabia o conteúdo dos pacotes. Belmiro é preso e passa uma noite na cadeia. Alguns policiais vão buscar provas na casa de Belmiro e encontram seu diário (o livro). O Delegado lê o diário e inocenta Belmiro, o diário deixa claro toda a alienação política e toda a falta de talento para qualquer ação. Em um dos trechos mais engraçados do livro, o delegado afirma: “Bem... Bem... Já conversamos bastante. O senhor pode retirar-se. Pedimos-lhe desculpas pelo equivoco. Por último, um conselho, se me permite... Seu diário me interessou. Noto, porém, que o senhor é excessivamente sentimental e tímido. Veja se fica mais direto na questão da... (moça)”
Belmiro tinha um amor platônico por uma jovem que vislumbrou durante uma festa de carnaval. No diário, ele narrou todo seu amor platônico, mas em nenhum momento do livro, ele foi capaz de tomar qualquer atitude para conquistar a moça. O lirismo de Belmiro, sua vida interior é tão pungente e forte, quanto é fraca e medíocre sua vida exterior e sua ação no mundo. Belmiro não foi capaz nem sequer de dizer “oi” para sua amada, quanto mais de fazer uma revolução comunista no Brasil. O delegado teve toda a razão, Belmiro é absolutamente inofensivo quando se trata de agir, nesse ponto do livro, lirismo e ação política se encontram, um homem que vive no sonho do seu diário, não consegue viver no mundo real.
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