O discurso da grande mídia às vezes tenta se justificar. Dentre esses argumentos, um deles especialmente me chamou a atenção. Trata-se da constatação de que os estudantes da USP são uns revoltados com o mundo e que a situação de hoje em dia é incomensurável com a opressão do regime militar, e alias, contra essa última era até aceitável lutar contra.
Em primeiro lugar, tomemos a revolta, o revoltado é uma figura pouco incômoda, porque, no fundo, todos sabem que o mundo como está é muito ruim e que a situação é terrível. Esse argumento não é meu, é um trecho do louvável Elogio à Filosofia, palestra proferida no College de France por Merleau-Ponty. Nesse Elogio, Merleau Ponty fala da Apologia de Sócrates escrita por Platão. Um dos fatos mais chocantes da Apologia é que Sócrates não é um revoltado com a cidade, uma espécie de terrorista niilista, Sócrates ama a cidade, Sócrates afirma proteger a Cidade, Sócrates obedece à cidade, porém Sócrates questiona, portanto, o poder instituído não pode aceitar. Se Sócrates fosse simplesmente um revoltado, a situação seria muito mais fácil de contornar, afinal, todo mundo sabe que o mundo é ruim, o problema é questionar as instituições de maneira séria.
Em segundo lugar, tomemos o ´ponto central, a difícil pergunta: o que resta da ditadura brasileira. Nos dizem que não resta nada, que aconteceu uma quebra de continuidade entre a ditadura e a democracia, que o passado ditatorial deve ser esquecido, que os crimes do Estado brasileiro não devem ser apurados. Contudo, resta muita coisa da ditadura, não houve quebra de continuidade mas sim abertura lenta, gradual e sucessiva. O estatuto da Usp é um zumbi de 1972, ou seja, a universidade se rege pelas leis e códigos instituídos naquela época. O estatuto proíbe manifestação política e religiosa no campus, logo, a tradicional missa de recepção aos calouros não deveria sequer existir.
Quanto à polícia, o caso é um pouco mais grave, a polícia militar é uma criação do regime militar. Alguns dos agentes da polícia militar foram treinados pelo pessoal dos órgãos repressivos da ditadura, o livro “Rota 66” do Caco Barcelos mostra isso. Mais do que isso, os procedimentos da polícia atual são os procedimentos da ditadura militar. O temido esquadrão da morte criou um modelo replicado em muitos outros lugares por policiais, na minha vizinhança, há poucos anos, existiu um esquadrão chamado de Os Highlanders, isso porque as cabeças das vítimas eram decepadas. Além disso, ainda temos a tortura e as violações aos direitos humanos. As torturas ainda são praticadas pela polícia, só que se na ditadura era contra uma classe média de estudantes universitários, agora é contra jovens pobres nas cadeias e febens, o Brasil foi condenado em diversas instâncias internacionais.
O caso da tortura é sintomático do tipo de relação que o Brasil mantém com seu passado. A tortura é algo que vem desde os navios negreiros e do pelourinho, uma prática comum no país, depois da abolição, os torturadores não foram punidos. Veio a ditadura militar, que também usou tortura, e não houve punição. Atualmente, os policiais torturadores também não são punidos, houve caso de gente condenada na OEA, mas absolvida no Brasil. Isso significa que o Brasil é um país que aceita à tortura, que aceita que o Estado torture. Esse é um resto da história colonial, que passa pela ditadura e que desemboca no presente. Outrora, Rui Barbosa destruíra os arquivos da escravidão, há pouco tempo, o supremo impediu que os torturadores fossem punidos. Os mortos insepultos, humilhados e torturados assombram o presente do País. Da ditadura ainda resta a tortura.
Em terceiro lugar, a mídia diz que a luta contra a ditadura era aceitável, mas que hoje em dia, porque a situação é incomensurável, é um absurdo se mobilizar para lutar. Isso é uma hipocrisia sem tamanho, pois como é sabido a grande mídia colaborou com o regime militar.
Voltando à situação da USP. Enquanto existir esse regimento que é um entulho da ditadura. Enquanto houver uma polícia que assassina e tortura, os estudantes vão se indignar. Queremos uma polícia digna, depurada dos torturadores e estupradores da ditadura, que agora mais velhos, ocupam altos postos, queremos uma polícia que entenda que tortura e assassinato são crimes e que o Brasil é um país que investiga e pune torturadores do passado e do presente. Queremos votar para Reitor! Queremos um conselho universitário que respeite a LDB e garanta 30% de representação para funcionários e estudantes. Queremos o fim das perseguições políticas! Por fim, queremos estudar em paz sem a polícia explodindo bombas de gás ao lado da nossa biblioteca.
Rodas é uma pessoa que abusa de estruturas de poder podres, além de derrubar esse reitor, é preciso acabar com essas estruturas.
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