segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

o que resta da ditadura.

 O discurso da grande mídia às vezes tenta se justificar. Dentre esses argumentos, um deles especialmente me chamou a atenção. Trata-se da constatação de que os estudantes da USP são uns revoltados com o mundo e que a situação de hoje em dia é incomensurável com a opressão do regime militar, e alias, contra essa última era até aceitável lutar contra.
Em primeiro lugar, tomemos a revolta, o revoltado é uma figura pouco incômoda, porque, no fundo, todos sabem que o mundo como está é muito ruim e que a situação é terrível. Esse argumento não é meu, é um trecho do louvável Elogio à Filosofia, palestra proferida no College de France por Merleau-Ponty. Nesse Elogio, Merleau Ponty fala da Apologia de Sócrates escrita por Platão. Um dos fatos mais chocantes da Apologia é que Sócrates não é um revoltado com a cidade, uma espécie de terrorista niilista, Sócrates ama a cidade, Sócrates afirma proteger a Cidade, Sócrates obedece à cidade, porém Sócrates questiona, portanto, o poder instituído não pode aceitar. Se Sócrates fosse simplesmente um revoltado, a situação seria muito mais fácil de contornar, afinal, todo mundo sabe que o mundo é ruim, o problema é questionar as instituições de maneira séria.
Em segundo lugar, tomemos o ´ponto central, a difícil pergunta: o que resta da ditadura brasileira. Nos dizem que não resta nada, que aconteceu uma quebra de continuidade entre a ditadura e a democracia, que o passado ditatorial deve ser esquecido, que os crimes do Estado brasileiro não devem ser apurados. Contudo, resta muita coisa da ditadura, não houve quebra de continuidade mas sim abertura lenta, gradual e sucessiva. O estatuto da Usp é um zumbi de 1972, ou seja, a universidade se rege pelas leis e códigos instituídos naquela época. O estatuto proíbe manifestação política e religiosa no campus, logo, a tradicional missa de recepção aos calouros não deveria sequer existir.
Quanto à polícia, o caso é um pouco mais grave, a polícia militar é uma criação do regime militar. Alguns dos agentes da polícia militar foram treinados pelo pessoal dos órgãos repressivos da ditadura, o livro “Rota 66” do Caco Barcelos mostra isso. Mais do que isso, os procedimentos da polícia atual são os procedimentos da ditadura militar. O temido esquadrão da morte criou um modelo replicado em muitos outros lugares por policiais, na minha vizinhança, há poucos anos, existiu um esquadrão chamado de Os Highlanders, isso porque as cabeças das vítimas eram decepadas. Além disso, ainda temos a tortura e as violações aos direitos humanos. As torturas ainda são praticadas pela polícia, só que se na ditadura era contra uma classe média de estudantes universitários, agora é contra jovens pobres nas cadeias e febens, o Brasil foi condenado em diversas instâncias internacionais.
O caso da tortura é sintomático do tipo de relação que o Brasil mantém com seu passado. A tortura é algo que vem desde os navios negreiros e do pelourinho, uma prática comum no país, depois da abolição, os torturadores não foram punidos. Veio a ditadura militar, que também usou tortura, e não houve punição. Atualmente, os policiais torturadores também não são punidos, houve caso de gente condenada na OEA, mas absolvida no Brasil. Isso significa que o Brasil é um país que aceita à tortura, que aceita que o Estado torture. Esse é um resto da história colonial, que passa pela ditadura e que desemboca no presente. Outrora, Rui Barbosa destruíra os arquivos da escravidão, há pouco tempo, o supremo impediu que os torturadores fossem punidos. Os mortos insepultos, humilhados e torturados assombram o presente do País. Da ditadura ainda resta a tortura.
Em terceiro lugar, a mídia diz que a luta contra a ditadura era aceitável, mas que hoje em dia, porque a situação é incomensurável, é um absurdo se mobilizar para lutar. Isso é uma hipocrisia sem tamanho, pois como é sabido a grande mídia colaborou com o regime militar.

Voltando à situação da USP. Enquanto existir esse regimento que é um entulho da ditadura. Enquanto houver uma polícia que assassina e tortura, os estudantes vão se indignar. Queremos uma polícia digna, depurada dos torturadores e estupradores da ditadura, que agora mais velhos, ocupam altos postos, queremos uma polícia que entenda que tortura e assassinato são crimes e que o Brasil é um país que investiga e pune torturadores do passado e do presente. Queremos votar para Reitor! Queremos um conselho universitário que respeite a LDB e garanta 30% de representação para funcionários e estudantes. Queremos o fim das perseguições políticas! Por fim, queremos estudar em paz sem a polícia explodindo bombas de gás ao lado da nossa biblioteca.
Rodas é uma pessoa que abusa de estruturas de poder podres, além de derrubar esse reitor, é preciso acabar com essas estruturas.   

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

reflexões pascalianas

"Mais dans l'esprit de finesse, les principes sont dans l'usage commum et devant les yeux de tout le monde. On n'a que faire de tourner la tête, ni de se faire violence; il n'est question que d'avoir bonne vue" Pascal, Pensées.

Pascal dividiu a inteligência humana entre o espírito de finura e os espírito geométrico. Ambos lidam com princípios diferentes (espécie de axiomas do raciocínio), o espírito de geometria trata de princípios pouco usuais ao ser humano, porém muito claros e grandes (gros), nesse caso é preciso desviar a cabeça da vida comum para enxergar esses princípios. No caso da finura, os princípios estão bem na frente de todos, não é preciso virar a cabeça, o desafio é outro: descriminar, pois os princípios são numerosos e delicados. Eu considero que a verdadeira inteligência é conseguir utilizar finura e geometria de acordo com o momento e o caso.
Entretanto, esse post não é uma reflexão sobre a filosofia de Pascal, mas uma reflexão pascaliana sobre a vida no CRUSP. Expliquemos. Na última sexta feira, fizemos uma festa para comemorar um aniversário e uma formatura no térreo do novo bloco A1 do CRUSP. Segundo me foi dito existia autorização para fazer a festa lá. Contudo, isso não impediu que a "segurança" (de fato, jagunçagem) do CRUSP fosse interferir e proibir a nossa festa. Fomos levados a uma sala do térreo do bloco B (o "quartel" deles), nessa sala discutimos sobre a autorização da festa. Nesse momento do relato, o espírito de finura entra em ação, as vezes é importante conseguir discriminar os detalhes importantes em uma cena ou em uma conversa, entre aqueles detalhes sutis e numerosos sempre é possível encontrar algo de precioso para a interpretação da situação.
Nesse caso um detalhe me chamou muito a atenção. Sobre uma das mesas da sala havia um livro e uma caixa de remédios, infelizmente minha visão não foi boa o suficiente para ver qual era o remédio, se fosse para escrever um conto sobre o ocorrido com certeza seria um antidepressivo ou calmante bem hardcore, mas não se trata de ficção. O detalhe importante é o livro. Se existe algo capaz de despertar minha curiosidade e atenção são livros, não resisti e li o título do livro.
Outro procedimento pascaliano muito interessante são as reviravoltas do pró ao contra. Pascal vai argumentando conosco e fornecendo aos poucos novas perspectivas sobre a verdade, a cada nova perspectiva fornecida, nosso entendimento sobre a situação aumenta e se esclarece. Vou me utilizar desse mesmo expediente:
Primeira reviravolta do pro ao contra: eu esperava que fosse algum livro de auto-ajuda ou de negócios ("como ser feliz" ou "como ficar rico") ou na melhor das hipóteses um livro de concurso público para abandonar enfim aquele cargo autoritário e repressor.
Segunda reviravolta do pro ao contra: Para minha máxima surpresa, descubro que se trata de um livro de Plutarco! E ao lado dele estava a suprema ferramenta do intelectual: o dicionário. Será que se tratava de uma alma irmã que assim como eu se saciava com ardor nas águas límpidas da reflexão filosófica? Será possível que em algum caso ler Plutarco não seja uma coisa ótima?
Terceira reviravolta do pro ao contra: Ao ver o título do livro, enfim, tudo se esclarece: "Como tirar proveito de seus inimigos". Minha ilusão de se tratar de um companheiro na busca do saber filosófico logo se dissipa. Se trata apenas de alguém querendo tirar do proveito de seu inimigo, nesse caso aparentemente: eu...
Ao sair, um dos agentes de segurança deu um leve esbarrão em mim, ao que eu quase cai pois me desequilibrei, ele pediu desculpas logo em seguida.
Assim sendo, eu aprendi uma lição com a ajuda de Pascal, que eu gostaria de dividir com todos os Cruspian@s: os agentes de segurança da Coseas nos consideram como inimigos, portanto, cuidado. Talvez eles sustentem o mesmo discurso ressentido da grande mídia: Baderneiros, Mimados, Desperdiçam o dinheiro público sem estudar. Apenas para esclarecer: as três pessoas que foram conversar com ele: uma advogada recém-formada pela Sanfran (moradora do CRUSP), um professor recém-contratado pelo UEL (morador do CRUSP) e um aluno de doutorado da filosofia (morador do CRUSP). Não somos mimados, não somos baderneiros, não somos inimigos.
Para além dessas reflexões guiadas pelo espirito de finura, gostaria de fazer uma última reflexão política: O bloco A1, assim como o CRUSP é fruto da luta de diversos estudantes, o Coseas apenas administra (mau) nossas conquistas.
Resultado da festa: nada depredado, nada sujo (limpamos todo o local), uma festa memorável com cerveja e churrasco até o meio dia do dia seguinte :)
Gostaria de terminar desejando sucesso ao Jefferson a a Márcia, os dois homenageados da festa.
Abraços a todos.
Wilson.