terça-feira, 3 de abril de 2012

Mario Vargas Lllosa me fascinou desde o primeiro momento que eu o li. A aparente contradição entre sua pessoa e seus livros se apresentou como um enigma a ser decifrado: a contradição entre sua posição e atuação politica e os temas de sua escrita. Como seu conservadorismo podia se aliar aos temas mais caros à esquerda: crítica ao colonialismo (O sonho do Celta), ao exército (Palomino Molero), à discriminação social (Palomino Molero) e racial, ao massacre de Canudos (Guerra do Fim do mundo)?

Contudo, ao terminar de ler a primeira parte do Sonho do Celta (colonialismo no congo belga), parte do fascínio, assim como parte do enigma se desfizeram.

Explico melhor: Em que termos se dá a crítica do colonialismo? Roger Casement, o herói aventureiro do livro, vai para o Congo Belga. Ele está totalmente iludido com a colonização, segundo palavras do personagem: iludido pelos três "C", cristianismo, comércio e civilização. Ao chegar no Congo e ajudar a implantar o sistema colonial, ele vê que o empreendimento toma um sentido bem diverso. Um quarto C guia todo o processo: a Cobiça. Trata-se de explorar e escravizar o Congo, extrair cada gota da seiva que permite produzir a borracha e cada gota do sangue dos congoleses no trabalho escravo de extração.
Contudo, a astúcia de Vargas Llosa falha e todo seu conservadorismo emerge. Afinal de contas, os três C do início NÃO são questionados. Uma colonização justa surge como possibilidade: A colonização civilizadora, na qual cristianismo, capitalismo e cultura européia serão ensinados aos nativos. Em nenhum momento a violência da colonização é abordada em toda sua profundidade, apenas suas escamas mais superficiais (escravidão, violência, exploração) são tocadas, as escamas mais profundas e sutis desse processo não são questionadas: É justo sufocar as religiões africanas em prol do cristianismo? É justo submeter as tribos as relações de comércio capitalista? É justo trocar a vida tradicional das comunidades pela vida europeia?
Talvez Roger Casement não pudesse ter clareza das mazelas do capitalismo, do cristianismo e da civilização européia em 1902, mas Vargas Llosa sabe muito bem que existe uma crise, seja da consciência européia (seus valores e civilização), seja do capitalismo, seja da igreja.  

Falar de colonização é fácil, contudo defender uma colonização civilizadora e modernizadora é muito difícil.