Enfim, algum tempo se passou e muitas coisas aconteceram. em primeiro lugar meu desejo de História se realizou segundo aquela velha máxima: "cuidado com aquilo que você deseja..."
Em segundo lugar, ouvi em praça pública um interessante reflexão feita por um filósofo muito controverso, Heidegger, a reflexão: a dicotomia entre ação e pensamento é uma falsa questão, pois o verdadeiro pensamento é ação efetiva e transformadora e a verdadeira ação é reflexão profunda e crítica. O lugar: acampa sampa, a ocasião: aula pública do "guru" Safatle. No entanto, é muito difícil deixar de me identificar com uma frase do Hesse no jogo das contas de vidro: "Em castália sabíamos tudo de Leibniz e Descartes e nada sobre Luís XIV e Richilieu"
Quanto à História. Tudo começou com o incidente envolvendo três alunos no estacionamento da FFLCH-USP, eu estava lá, tive a oportunidade de receber algumas bombas da polícia. Daí em diante, houve uma escalada nos conflitos que culminaram com a desocupação brutal da reitoria. Eu estava dormindo em meu quarto no crusp, quando acordei com os pedidos de socorro de outros estudantes, ao descer, percebo que os corredores do crusp estão fechados pela polícia, ainda sonolento e tentando entender o que estava acontecendo, escuto uma bomba de gás estourando próximo à mim. Não se trata de descrever minhas vivências pessoais, mas apenas indicar que eu estava presente nesses dois momentos importantes.
Depois disso foi com muito receio e medo que acompanhei todos os comentários raivosos e intolerantes feitos contra os estudantes, desde gente querendo ressuscitar a ditadura e passar por cima com tanque de guerra, até gente condenando os estudantes como vândalos e desocupados. No entanto, poucas pessoas realmente sabem o que acontece na USP, poucas pessoas sabem quais são as verdadeiras pautas do movimento. A fúria fascista dos comentários de facebook e de alguns jornalistas da grande mídia me fizeram lembrar de alguns episódios da história paulista, por exemplo, quando Getúlio radicaliza a ditadura no estado novo e cancela as eleições que estavam marcadas. Os paulistas com medo dos comunistas e dos integralistas foram aumentando os poderes de Getúlio até o ponto dele se constituir ditador. O medo e a miopia dos paulistas sufocou a carreira política de Armando Salles de Oliveira (nome do campus da USP), Armando pretendia ser o candidato dos paulistas nas eleições de 38, mas teve que fugir do Brasil e os paulistas tiveram que padecer a ditadura. Em uma primeira olhada, essa comparação pode parecer radical demais, mas não podemos esquecer que a criminalização dos movimentos sociais é um verdadeiro absurdo, contrário até mesmo ao estado de direito. Os alunos pressos e processados, na invasão da reitoria, dificilmente serão condenados, contudo, a USP abre o precedente para que todos os reitores do país vão às mesas de negociação com o cassetete policial em punhos... Lembrei-me também da declaração do presidente Washigton Luís, último presidente do café com leite, "movimento social é caso de polícia".
O movimento da usp tem três pautas principais:
Fim dos processos políticos contra funcionários e estudantes (ou seja, fim da criminalização dos movimentos sociais, nos estudantes, eles atiraram com balas de borracha, mas no MST, eles atiraram com balas de verdade no terrível massacre de Carájas...)
Democracia e estatuinte na universidade (a usp tem um regimento da época do regime militar que prevê punição para manifestações políticas, além disso, ela possuí um das burocracias mais fechadas e antidemocráticas, apenas uma minoria dos professores vota no reitor e no fim quem decide é o governador)
Discussão de um plano de segurança para a universidade ( A PM de SP é uma das mais problemáticas e violentas do mundo, a segurança no campus pode ser feita de maneira mais efetiva, a universidade pode até mesmo propor novas formas de segurança para a cidade).
Enfim, nem heróis, nem bandidos, os estudantes apenas querem poder participar da gestão da universidade. Se eu posso votar para presidente porque não posso votar para reitor?