sexta-feira, 19 de agosto de 2011

título

Tanto a ideia de criar o Blog como o título surgiram da leitura do livro o "Jogo das Contas de Vidro" de Herman Hesse. Eu demorei dez anos para conhecer esse autor. A biblioteca da escola, na qual cursei o ensino médio, acabara de receber uma grande remessa de livros do governo do estado. Eu, é claro, estava esperando pelo senhor dos anéis, mas, ao ver os outros livros, um deles me impressionou muito pela capa, havia uma águia prussiana sobre um fundo laranja, tratava-se do Demian do Hesse.
Peguei ambos, o Senhor dos Anéis e o Demian, obviamente fiquei decepcionado com o Demian, pois naquele momento estava disposta a ler o Tolkien. Hesse me pareceu demasiadamente pessimista, sombrio e real, é provável que não tenha gostado do livro, não porque ele não tinha nada a me dizer, mas, sim porque ele estava demasiadamente próximo daquilo que eu vivia. Não estava na Europa desiludida do pós-guerra, mas as questões que o livro colocava eram questões pertinentes para qualquer adolescente ocidental, principalmente, para mim que tinha pendores filosóficos e literários.
Eu abandonei a leitura do Hesse inconclusa.
Passaram-se dez anos até que eu pudesse reencontrar o Hesse. Foi assustador ver como mais uma vez, esse autor surgiu exatamente de encontro à tudo o que eu passava e sentia no momento... Uma amiga me indicou o livro com tanta paixão que eu não consegui resistir. O li.
A história de José Servo me fascinou, primeiro por eu estar em uma espécie de mosteiro laico, como o retratado no livro: um doutorado em filosofia do século XVII, minha castália fica na Universidade de São Paulo, segundo, e mais importante, pelo desejo de "História" que o personagem adquire ao longo do livro. Cada vez mais, José sente necessidade de sair de Castália, necessidade de conciliar o mundo da história com seu mosteiro de especulação e pesquisa dedicada.
Além desses dois primeiros pontos, um outro detalhe me chamou a atenção: as contas de vidro. José se tornou o mestre do Jogo de Avelórios, uma espécie de jogo onde temas de diversas áreas de pesquisa eram entrelaçados e expostos. As contas de vidro foram marcadores utilizados nos primórdios do jogo, espécie de característica geral leibniziana.
Essas contas de vidro surgiram para mim não apenas como os marcadores que significavam os saberes humanos mas como os próprios saberes humanos, por um lado, eles são raros e preciosos (as contas ou pérolas), eles são castália; mas, por outro lado eles são frágeis e delicadas (o vidro), eles estão no mundo sujeitos à história e a barbárie, lembremos que o autor vivenciou o período de guerra mundial na Europa.
Essas pérolas de vidro representam os dois mundos: o saber e o evento, o estudo e a ação, a acadêmia e a praça pública. Servo tentou conciliar as duas coisas.
Espero que nesse espaço eu possa escrever algumas pérolas de vidro.